
"Ler um livro é como um jogo, uma aventura que transforma o leitor. Encontramos sempre mistério, corremos sempre um risco. É essa a proposta de Clarice: fazer com que o leitor participe de sua história, entre no jogo, sinta-se protagonista. O desafio é a construção do sujeito, ou melhor: Lóri. Loreley, a sereia germânica que seduzia os navegantes do Reno; a sereia de Campos a quem Ulisses resiste, fechando-se a seus encantos, até que eles mesmos se tornem encantados.Por que acompanhamos/vivemos a história de Lóri com tanta emoção e/ou curiosidade? Talvez porque, para Lóri, tudo está por acontecer. Nada é rápido, tudo se constrói lentamente, como se a natureza estivesse acumulando a seiva da vida, mas sem perder o sentido de sua precariedade:
Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Talvez porque a narrativa concretize o próprio mistério da experiência: ignoramos o início, desconhecemos o fim. A vírgula originária, tal como nosso ancestral espermatozóide, não passa de uma continuação que apenas aumenta o sentido de precariedade, enquanto os dois pontos finais fazem desse relato algo infinitamente pungente, isto é, acentuam nosso desconhecimento do fim. Talvez porque esse livro, tão pequeno, encerra uma história que foge de suas proporções físicas, desenrolando-se em "longos" lapsos de tempo, com a grandeza e a severidade de uma narrativa bíblica. Não por acaso, seu sub-título é o "Livro dos prazeres", numa referência aos livros do Velho Testamento.Talvez porque Lóri e Ulisses sejam pessoas tão comuns. Professora primária, professor universitário. De suas vidas só temos poucas indicações, quadros pintados a distância, momentos já vividos:Lóri já havia contado a Ulisses sobre o tempo que, em Campos, os pais eram ricos e viajaram, demorando-se meses com os filhos num país ou outro, até que, ao mesmo tempo em que sua mãe morrera, a fortuna se reduzira a um terço.Vidas comuns e, no entanto, que profundidade de sentimentos já viam escondidos naquela aparência irrelevante! Vidas comuns, mas vividas com intensidade, com o prazer e dor de seres jogados num mundo, onde a felicidade é quase sempre uma ficção. Um encontro, um amor, um "caso". Tudo muito humano, "demasiado humano"..."
Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Talvez porque a narrativa concretize o próprio mistério da experiência: ignoramos o início, desconhecemos o fim. A vírgula originária, tal como nosso ancestral espermatozóide, não passa de uma continuação que apenas aumenta o sentido de precariedade, enquanto os dois pontos finais fazem desse relato algo infinitamente pungente, isto é, acentuam nosso desconhecimento do fim. Talvez porque esse livro, tão pequeno, encerra uma história que foge de suas proporções físicas, desenrolando-se em "longos" lapsos de tempo, com a grandeza e a severidade de uma narrativa bíblica. Não por acaso, seu sub-título é o "Livro dos prazeres", numa referência aos livros do Velho Testamento.Talvez porque Lóri e Ulisses sejam pessoas tão comuns. Professora primária, professor universitário. De suas vidas só temos poucas indicações, quadros pintados a distância, momentos já vividos:Lóri já havia contado a Ulisses sobre o tempo que, em Campos, os pais eram ricos e viajaram, demorando-se meses com os filhos num país ou outro, até que, ao mesmo tempo em que sua mãe morrera, a fortuna se reduzira a um terço.Vidas comuns e, no entanto, que profundidade de sentimentos já viam escondidos naquela aparência irrelevante! Vidas comuns, mas vividas com intensidade, com o prazer e dor de seres jogados num mundo, onde a felicidade é quase sempre uma ficção. Um encontro, um amor, um "caso". Tudo muito humano, "demasiado humano"..."
by: Geysa Silva, sobre a obra "Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres", Clarice Lispector.
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