Na rua ao lado, ouvia-se o toc-toc. Insistente, decadente, ele batia, já cansado, quase parando. Como se o continuar fosse a condição principal para alcançar os objetivos. Tem dias que é assim. Batemos, insistentes, e nada. Nada de pedra dura furada, mesmo com água mole batendo. A ação primeira evita as ações conseqüentes (ou inconseqüentes). Aí lembro de certos relacionamentos. Aquele que se arrasta lentamente, enquanto o outro já se arrasta para o lado oposto. Sobe poeira... tosse...bocejo. Dá um sono! De saber que algo está para se acabar, vem o lamento e a tristeza de pensar no fim. E volta a bater. Mesma tecla, mesmo prego. O toc-toc diário, ao sair de casa, ao voltar, ao meio-dia. Almoçar em paz! Um fala, o outro resmunga. O que resmunga quer deixar e o que fala se desculpa. E se arrasta... poeira. E bate... toc-toc. Os dois cansados, e o tempo passou. A vida é que passou mais rápido, naquela rua ao lado, onde se ouvia, insistente e decadente... o toc-toc.
20/12/06
quarta-feira, 6 de junho de 2007
O quarto
Um vestido, uma bolsa uma fotografia.
Lá está o botão, que cabe dentro dela, foi lá que eu vi. Que a boneca, o chinelo, o ventilador, ventila o pé descalço, o sorriso de plástico, a inocência de quem parou.
Gavetas, caixas, cadeiras. Há roupas, há carta, há gente.
Visto-me, escrevo, sento e choro copiosamente.
Viro-me, espelho.
Deprimo-me, quadrados.
Levanto-me, batidas.
Vejo-me refletida, a tristeza é amiga.
E cada compartimento de mim é um ato que me domina.
Não entre, não saia, não fique.
Prefiro a solidão, prefiro a companhia.
Mas vamos lá fora, ver o povo dar bom-dia.
21/12/06
Lá está o botão, que cabe dentro dela, foi lá que eu vi. Que a boneca, o chinelo, o ventilador, ventila o pé descalço, o sorriso de plástico, a inocência de quem parou.
Gavetas, caixas, cadeiras. Há roupas, há carta, há gente.
Visto-me, escrevo, sento e choro copiosamente.
Viro-me, espelho.
Deprimo-me, quadrados.
Levanto-me, batidas.
Vejo-me refletida, a tristeza é amiga.
E cada compartimento de mim é um ato que me domina.
Não entre, não saia, não fique.
Prefiro a solidão, prefiro a companhia.
Mas vamos lá fora, ver o povo dar bom-dia.
21/12/06
Presentes baratos

Parecia cinema. O escuro aqui, e a vida passando lá fora. Mas à minha frente, o sorriso insinuante e o olhar pretensioso. Já tinha cansado da situação. Mas que nada! Todos os dias era um agrado. Flor, esmalte, batom. E um convite para o rala coxa. Ia à noite, com a saia vermelha. Cada rodada era um carrossel. A cada brilho e balanço, ele lançava um olhar. Aquele, penetrante. Ma carregava e nós dançávamos. E vinha aquele cheiro de desodorante barato misturado com cigarro. A unha pintada e o cabelo grande. Ele tinha tudo que eu não gostava. Mas eu o queria. E o beijava e deixava ser levada.
- Vadia! Por que tu vens?
- Porque te quero.
-Cala a boca.
Era dia. Do lado não estava mais. Só a flor. Aquela vermelha com cheiro ativo, que vinha com um bilhete cheio de erros de português. A lembrança do sorriso safado, a blusa de seda, cabelo molhado, lábios carnudos, pernas no mundo e aliança na mão esquerda. E as falsas promessas e os presentes baratos. Meu Deus, por que gosto dele, se tudo nele é detestável?
Mas ele me puxa e perco a noção. A vida é errada, mas hoje é sábado. E mais tarde tem mais rala coxa e as falsas promessas dele.
22/12/06
- Vadia! Por que tu vens?
- Porque te quero.
-Cala a boca.
Era dia. Do lado não estava mais. Só a flor. Aquela vermelha com cheiro ativo, que vinha com um bilhete cheio de erros de português. A lembrança do sorriso safado, a blusa de seda, cabelo molhado, lábios carnudos, pernas no mundo e aliança na mão esquerda. E as falsas promessas e os presentes baratos. Meu Deus, por que gosto dele, se tudo nele é detestável?
Mas ele me puxa e perco a noção. A vida é errada, mas hoje é sábado. E mais tarde tem mais rala coxa e as falsas promessas dele.
22/12/06
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